Com uma carteira de ações que soma mais de R$ 2 bilhões, Luiz Barsi é o maior investidor pessoa física da Bolsa de Valores.
Mas nem sempre foi assim. Barsi veio de uma origem simples — e chegou a trabalhar como engraxate e vendedor de balas em sua infância para ajudar com as despesas da casa.
Ele também trabalhou como aprendiz de alfaiate no Brás, o bairro de São Paulo onde ele passou boa parte da infância e juventude.
O investidor Barsi só veio bem depois, quando ele trabalhou em uma corretora de valores e começou a se familiarizar com o mundo das ações e desenvolver sua própria estratégia de investimentos.
O caminho até seu patrimônio bilionário foi longo e demandou muita paciência e consistência em sua estratégia — numa época em que a Bolsa de Valores era vista apenas como um lugar de especulação.
Hoje, Barsi é considerado uma lenda por boa parte dos investidores de valor — e seus ensinamentos têm sido transmitidos por meio de sua filha, Louise Barsi, que seguiu o caminho do pai e criou uma plataforma de educação.
A estratégia de Luiz Barsi é simples, mas demanda (muita) paciência: comprar ações boas pagadoras de dividendos, que operem em setores perenes da economia e que estejam negociando a preços baixos (o que ele analisa por meio do dividend yield).
Depois disso, é só ir reinvestindo os dividendos e esperar o tempo fazer seu trabalho.
A vida de Luiz Barsi

Luiz Barsi Filho nasceu em 10 de março de 1939 na cidade de São Paulo.
Filho de imigrantes espanhóis que vieram ao Brasil depois de perder tudo em uma enchente, ele sempre teve uma vida simples e difícil. Seu pai morreu quando ele tinha apenas um ano, o que o obrigou a começar a trabalhar muito cedo, aos sete anos de idade.
Foi engraxate, vendedor de balas no cinema e aprendiz de alfaiate, aprendendo desde cedo a importância do trabalho — e as agruras de uma vida de escassez. Barsi passou a infância e juventude no bairro do Brás, onde viveu com sua mãe em um pequeno cortiço.
Aos 14 anos, o jovem Barsi teve seu primeiro contato com o mercado de ações. Começou a trabalhar em uma corretora de valores, onde foi estimulado a fazer uma formação técnica em contabilidade.
Depois de se formar contador, Barsi fez outras duas faculdades, se formando advogado e economista. Ele chegou a dar aula de análise de balanços e a trabalhar como auditor.
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O caminho para o bilhão
Foi como auditor que Luiz Barsi começou a questionar pela primeira vez a sustentabilidade da Previdência Social, o que o tornou obcecado por conseguir uma outra forma de aposentadoria.
Como ele já disse algumas vezes, ele nunca quis ser rico, mas não queria nunca mais “voltar a ser pobre”, na condição de miséria que viveu.
Barsi percebeu que uma forma de conseguir uma boa aposentadoria seria se tornando sócio de empresas, e vivendo com os dividendos recebidos desses negócios.
Como nunca quis empreender, viu que o melhor caminho para fazer isso seria comprando ações na Bolsa.
Nos anos 70, Barsi desenvolveu um estudo, que ele chamou de “Ações garantem o futuro”, mostrando justamente o potencial de ter uma aposentadoria digna investindo em boas empresas listadas na Bolsa, que pagam dividendos.
Na época, ele começou sua jornada de investidor comprando apenas uma ação: a CESP, uma geradora de energia do Estado de São Paulo que deu origem a Auren, que é listada até hoje na B3.
Barsi começou a comprar todos os meses 1.000 ações de CESP, que negociavam a cerca de R$ 0,50. Seu objetivo era chegar a 100.000 ações, quando os dividendos da companhia já permitiriam ele fazer os aportes sem desembolsar mais dinheiro.
A escolha da CESP teve a ver com os dividendos da empresa: ela pagava dividendos semestralmente e com um mínimo obrigatório estipulado por estatuto.
Depois da CESP, Barsi começou a comprar outras empresas com características semelhantes: geradoras de caixa, boas pagadoras de dividendos, e a bons preços.
Como ele já contou algumas vezes, demorou 10 anos seguindo essa estratégia rigorosamente para conseguir se aposentar e viver apenas dos dividendos de suas ações. O resto é história.
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Passagem pelo jornalismo
Luiz Barsi também teve algumas passagens pelo jornalismo.
Ele foi por 18 anos o editor de economia do Diário Popular e foi editor de mercado de capitais da Revista Marketing por outros três anos (de 1989 a 1992).
Segundo ele, essa passagem pelo jornalismo foi fundamental para ajudá-lo a conhecer melhor as empresas que investia, já que como editor de um jornal reconhecido ele tinha muito acesso aos executivos das companhias listadas.
O método de Luiz Barsi
Luiz Barsi sempre diz que seu método de investimentos é tão simples que qualquer pessoa seria capaz de seguí-lo — basta querer.
O problema: a grande maioria das pessoas não gosta de ficar rica devagar, e quer algum método que garanta riqueza rápido.
A filosofia de investimentos de Barsi é comprar ações geradoras de caixa, boas pagadoras de dividendos e a preços descontados — e repetir essa fórmula por décadas.
Isso vai garantir que o investidor vá pouco a pouco formando uma carteira previdenciária, cujos dividendos vão crescendo exponencialmente, como uma bola de neve.
A estratégia é semelhante a de outros investidores conhecidos como Warren Buffett — que também busca boas empresas, de setores perenes e a bons preços.
Mas talvez a maior diferença do método de Barsi é a obsessão por dividendos. Para Barsi, o mais importante do investimento em ações é o dividendo.
Ele já disse muitas vezes que o patrimônio é “a medida do ego” e que “o que paga as contas são os dividendos.”
Os erros — e as grandes tacadas
Apesar do método de Luiz Barsi já ter se provado ser uma estratégia de sucesso no longo prazo, o investidor já cometeu erros em sua trajetória.
O ponto é que ele teve muito mais acertos do que erros.
Um de seus maiores erros foi comprar ações do Banco Nacional, que quebrou em 1995 depois de uma interferência do Banco Central. O Banco Nacional maquiou sua contabilidade e cometeu uma série de fraudes que o levaram a um prejuízo de mais de 500% do seu valor patrimonial.
Ele também teve ações do Banco Econômico, que foi fechado pelo Banco Central. Nesse caso não houve nenhuma fraude.
Barsi disse, no entanto, que em ambos os casos ele tinha comprado essas ações com o reinvestimento dos dividendos, o que garantiu que as perdas não gerassem “uma mutilação patrimonial.”
“Foram perdas insignificantes, que não prejudicaram o patrimônio,” disse o investidor certa vez.
Já do lado dos grandes acertos, Barsi já citou algumas vezes a Klabin, Suzano e Santander Brasil. Quando ele começou a comprar Santander Brasil, a ação negociava a R$ 0,11, porque muitos investidores achavam que o banco poderia quebrar.
Outra grande tacada de sua carreira foi a Unipar Carbocloro, que ele comprou quando a ação negociava a cerca de R$ 3.